quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O grafite

          Nos anos 60 e 70 do séc. XX jovens de todo o mundo usavam o espaço público para afirmar protesto contra a cultura estabelecida. Eram comuns  dizeres como "É proibido proibir", "Abaixo a ditadura", "Faça amor, não faça a guerra", que demonstram as preocupações sociais e políticas da coletividade. Daquela  época são os 56 murais que cobrem as colunas do viaduto do Caju, pintados por José Datrino, o Profeta Gentileza, que na sua luta solitária defendia a causa pacifista.


          No final dos anos 70 o grafite  transformou-se  em expressões cifradas de garotos dos bairros populares das grandes cidades. Não tinham intenção política, nem pornográfica, nem dialogavam com a sociedade. Eram apenas sistemas de comunicação entre grupos.
          De modo que o grafite começou com agressividade, contestação, tipo pichação, mas acabou transformando-se em expressão artística. As assinaturas viraram pinturas e passaram a circular nos segmentos artísticos pós-modernos - trocas de experiências de mão dupla entre a elite e os excluídos. Dos muros da periferia o grafite migrou para os trens e metrôs, e daí para espaços mais nobres, bienais e galerias de arte.
          Hoje as autoridades têm consciência de que conduzir a prática do grafite a um fim útil, que substitua o hábito aleatório de pichar muros por expressões significativas da pluralidade urbana é melhor do que gastar tempo e dinheiro para corrigir a poluição visual que descaracteriza os patrimônios históricos e prejudica o turismo.
          Ações afirmativas que conseguem agregar grupos de pichadores, e os orientam sobre os espaços disponíveis e autorizados na cidade, enquanto se conscientizam do valor histórico dos prédios a serem preservados, sempre serão benvindas. Demandam uma espécie de redirecionamento na temática: incentivar a pesquisa de personagens e figuras típicas dos bairros, atores, cantores, compositores, letras de canções populares, representações de carnaval, fantasias famosas, manifestações religiosas e folclóricas, esportes, personagens de histórias em quadrinhos, caricaturas de famosos, filmes, jogos interativos, o próprio cenário do bairro, comunidades de redes sociais, etc. Tudo pode ser absorvido no universo do grafite, da complexidade urbana e fragmentada ao universo pessoal de cada um.
          Com sorte pode-se criar um grupo com consciência ecológica e preocupações ambientais e então desenvolver grafites de impacto para transformações sociais que trarão benefícios no futuro.
          Procurar sempre spray que não contenha agentes químicos que causem danos ao meio ambiente e à saúde são cuidados essenciais. Construir uma página na internet para postar os trabalhos e incorporar candidatos a se reunirem ao grupo também.
          A orientação de um arquiteto urbanista é fundamental.
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Mostra “Pacificadores” de Jaime Prades (objetos/esculturas )

         
         

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

As faces da beleza

          A Iconologia de Cesare Ripa, escrito em 1644, diz: "A Beleza deve ser pintada com a cabeça entre as nuvens; beleza cujo esplendor deriva da luz da face de Deus, da qual só se pode entrever a face, pois além das nuvens abre-se o reino do espaço infinito ou indefinido". Referia-se à representação alegórica feminina que estaria mais de acordo com sua concepção filosófica.
          Era em busca dessa perfeição, da qual só se pode ter uma parcial idéia, que militava a Escola de Belas Artes do RJ no ano 1970. Contava então com um corpo docente do mais alto nível de artistas consagrados no campo das artes plásticas.
          Depois da aula inaugural, que tinha lugar no salão nobre, cada mestre dispunha de um espaço adaptado à sua disciplina. A cadeira de Estética era ministrada pelo prof. Onofre Penteado, na pequena sala do térreo, à esquerda da entrada.
          Diante de um desenho de nu artístico (corpo feminino trabalhado com sutilíssima delicadeza de linhas, perfeito posicionamento de luz, volume suave e equilibrado, a carvão, obra prima de sua autoria) ali discorria o professor sobre os mistérios da beleza...Citava Platão e Aristóteles, e fazia comparação com os filósofos do Renascimento.
          Tinha um porte altivo, sem ser pedante, voz bem pausada e um estilo sóbrio de trajar. Parecia ele mesmo um pequeno deus que deixara o Olimpo por alguns instantes para trazer sabedoria aos pobres mortais...
          Os alunos, jovens sem experiência e com pouca leitura, faziam um esforço enorme para acompanhar a aula, que na verdade era uma conferência...
          Um dos alunos, impaciente que era, perguntava-se quando o mestre chegaria ao século XX, pois na sua limitada visão só importava a modernidade, o novo que viria...
          Passou-se um ano, e nada. Quando finalmente o aluno começou realmente a interessar-se pelos ideais de harmonia, virtude e beleza da Antiguidade Clássica, ocorreu um fato inesperado.
          No corredor lateral da escola, sob a vasta clarabóia,viu o prof. Onofre (de macacão sujo de tinta)   atacar com disposição um enorme painel com uma espátula pouco menor  que uma colher de pedreiro. Lançava com vigor a tinta sobre o painel, misto de entusiasmo e emoção. Que surpresa!...
          O projeto em si pedia concentração e determinação, pois as cores escolhidas (branco, vermelho, cinza e preto) são de difícil combinação. Os movimentos da espátula respondiam aos impulsos da vontade, eram firmes, seguros, e não demonstravam nenhuma hesitação. Impressionante, mágico, maravilhoso...Na verdade, era pintura moderna  dos anos 70 da mais alta qualidade....
          Por um bom tempo apreciou o aluno o desenrolar da prática. Mas nunca teve oportunidade de ver o painel finalizado...No entanto, aprendeu uma grande lição que não esqueceu jamais: nunca se deve   julgar um artista por uma só obra, nem um mestre por um só ensinamento. Na vida, o melhor mesmo é ser humilde, tentar compreender a mensagem do outro, e não julgar....
          Há um tempo certo para aprender. Cada instante tem sua poesia. É preciso saber aproveitar.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Ver para crer

          O catálogo do Museu Britânico informa que :" --- a obra "Vento do Sul, Céu claro" ou "Fuji Vermelho" de Katsushika Hokusai (1830-33) faz parte de uma série de trinta e seis vistas do Monte Fuji. Dizem que no fim do verão e início do outono, quando as condições são boas, que o céu é claro e o vento sopra do sul, as encostas do Fuji podem parecer vermelhas ao sol nascente. Apesar de ser a mais abstrata da série, esta composição é contudo a mais específica do ponto de vista meteorológico".
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          Independentes de tal classificação, estudiosos japoneses descobriram que o efeito da umidade da chuva da madrugada sobre as rochas é o que permite ao monte tomar essa tonalidade tão peculiar sob a luz solar da manhã. Fotógrafos aguardaram o tempo certo, e puderam capturar a imagem no exato momento em que o corpo do monte estava avermelhado, com manchas claras de neve, semelhantes a veios que se ramificam pela encosta abaixo, enquanto  as nuvens dispostas em faixas horizontais no céu azul projetavam sombras escuras sobre o pico do monte Fuji, e completavam a sublime paisagem.
          Esse relato dos pesquisadores faz parte do conteúdo do documentário sobre o artista japonês Hokusai que a TV Arte 1 apresenta nessa semana. Sem essas provas testemunhais fotográficas seria difícil saber se a cor vermelha empregada pelo artista seria uma interpretação arbitrária e portanto abstrata, ou a observação direta do real, como demonstra o fotógrafo militante.
          Excelente programa expõe também as curiosas soluções utilizadas pelo artista para resolver problemas de profundidade nos quadros. Se a experiência oriental já facilitava ao artista tomar numerosos pontos de vista ( observação pela intuição, vistas superpostas, planos em degraus, linha do horizonte alta) , o contato com obras de arte ocidentais enriqueceu o conteúdo temático, a experiência com  perspectiva cavaleira e a inovação no uso da sombra projetada. Resultou numa obra variada com simplicidade de recursos.
          Parabéns a TV Arte 1 !


Arte e espiritualidade

          Arte: meio de elevação e renovação
          "A arte bem compreendida é um poderoso meio de elevação e renovação. É fonte dos mais puros prazeres da alma, ela embeleza a vida, sustenta e consola na provação e traça para o espírito, antecipadamente, as rotas para o céu. Quando a arte é sustentada, inspirada por uma fé sincera, por um nobre ideal, é sempre uma fonte fecunda de instrução, um meio incomparável de civilização e aperfeiçoamento " . Léon Denis
          
          "Existe um objeto de louvor, a Beleza, que levanta o coração de seus adoradores através de todos os aspectos, do Visto para o Não-visto". Hazrat Inayat Kahn
         
          Natureza e arte, matéria e elaboração
          "Não há beleza sem ajuda, nem perfeição que não pareça bárbara sem a arte: ela corrige o que é ruim e aperfeiçoa o que é bom. Sem a cultura, não existiria metade das perfeições. Todo homem parece tosco sem a arte. É necessário educar-se para alcançar a perfeição". Baltasar Gracián
         
          Ensinamentos de Meishu Sama
          "A  arte deve ser incentivo à eliminação da bestialidade humana, bem como um recurso pelo qual todos possam conquistar sentimentos mais nobres. Assim então, a literatura, o teatro, o canto, a dança, a pintura deverão ser o caminho pelo qual os valores espirituais do artista, expressos através de sua sensibilidade, tocarão a alma do povo, estabelecendo-se entre ambos, um elo de sentimentos e emoções altamente elevados".
          "Tudo que há no universo acha-se em harmonia. Só há desarmonia para quem vê as coisas superficialmente: é um erro de ponto de vista".Mokiti Okada

          "Um pouco do ser interior escapa através dos centros da consciência para dentro da vida exterior, mas este pouco é a melhor parte de nós e é responsável por nossa arte, poesia, filosofia, ideais, aspirações religiosas, esforços para conhecimento e perfeição". Sri Aurobindo
                                            
          "Tudo é um, a onda e a pérola, o mar e a areia. Nada do que existe neste mundo está fora de ti. Procura bem em ti mesmo o que tu queres ser, porque tu és tudo, e a história do mundo dorme em cada um de nós..." Djalâl Al-Din Rûmi, Le Mesnevi
         
          "O homem superior trabalha na raiz, que é a Paz Absoluta. Essa busca da origem, que é a quietude prístina, foi sempre o ideal do Pensamento Chinês, e de seu corolário, a Arte".  Confúcio.

          "Qualquer que seja a área da atividade humana - esporte, arte, filosofia, ciências, empreendimentos, invenção, relações pessoais, vida social, etc -, porque as pessoas buscam incessantemente o mais alto grau, o melhor, o mais belo, o mais valioso? O fato de o ser humano almejar o aperfeiçoamento é prova de que nele estão latentes todos os atributos de Deus".   Masanobu Taniguchi

          "Tal como a virtude, a arte versa sobre aquilo que é difícil". Tomás de Aquino.

          "Não basta dizer que a arte produz em nós uma elevação moral, excitando o sentimento da admiração, porque essa admiração não costuma passar daí, resultando de todo modo estéril para a livre realização do bem, se não a ajuda outro motivo mais alto".(...) Mais vale a beleza ligada à prática do bem, do entendimento e das obras, que a dos sentimentos  e dos adornos". Marcelino Menéndez y Pelayo.

          "A consciência é como um cristal: enquanto descansa sobre uma superfície colorida, não se vê a clareza incolor da pedra, mas uma vez que afastemos o cristal dessa superfície, poderemos perceber seu brilho real". Dalai- Lama

          "O que conta em primeiro e em último lugar na arte é a qualidade".Clement Greenberg.

          "A arte de um povo é a sua alma viva, o seu pensamento, a sua língua no significado mais alto da palavra; quando atinge a sua expressão plena, torna-se património de toda a humanidade, quase mais do que a ciência, justamente porque a arte é a alma falante e pensante do homem, e a alma não morre, mas sobrevive à existência física do corpo e do povo."  Ivan Turgueniev

          
          "A finalidade da arte é dar corpo à essência das coisas, não é copiar sua aparência."
Aristóteles.
         

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Três gritos e um sussurro

          Em 1895 o pintor norueguês Edward Munch realizou uma litografia que intitulou " O Grito". Nela vê-se o rosto de uma pessoa que tampa os ouvidos com as mãos, de olhos arregalados  e boca aberta , distorcidos. Está centralizada, e atravessa uma ponte, em cuja extremidade , à distância, duas figuras observam a paisagem, que parece ser de mar ou lago. Todas as linhas convergem para a caricatura expressiva. Por que grita? Ninguém sabe ao certo, mas alguns estudiosos acreditam tratar-se de uma supersensibilização quanto aos sons provenientes da natureza...
          Na mesma época ( 1888), no Brasil, a pintura a oleo sobre tela do brasileiro Pedro Américo foi igualmente apelidada " O Grito", pois celebra o revival da criação do estado-nação brasileira, inspiração romântica baseada no  Dia do Fico de D. Pedro príncipe regente, que proclamou  a independência do Brasil, às margens do riacho Ipiranga. Este momento histórico havia ocorrido em 1822, e em 1888 ainda viviam pessoas que o presenciaram.
          Então o pintor firmou contrato para realização do quadro, recolheu documentos relacionados,  empréstimos de artefatos bélicos e fardas utilizadas, relatos fisionômicos, foi duas vezes ao local para anotar acidentes de terreno da paisagem, e partiu para Florença, onde pintou-o com ardor cívico nacional, uma epopéia.


          Naturalmente, D, Pedro é retratado sobre um belo cavalo, farda de gala, na sua melhor forma, à frente do séquito igualmente imponente, sobre a colina do Ipiranga. Esperava-o a guarda de honra que o recebeu em São Paulo.*
          E enquanto D. Pedro viajava, no Palácio Real do Rio de Janeiro, D. Leopoldina, arquiduquesa da Áustria, sua esposa, construía um excelente acervo científico e cultural para a nação com o auxílio dos cientistas:  J. Spix e  C. F. von Martius, o zoólogo J. Natterer, o botânico H. W. Schott, o geólogo J. E. Pohl  -  e do pintor austríaco Thomas Ender, que chegou pouco antes de seu casamento com o D. Pedro.
          Thomas Ender era excelente aquarelista, e encontrou no Rio de Janeiro magníficas paisagens, com plantações e floresta tropical intacta. Ficou tão entusiasmado com o Brasil que escreveu: " (...) neste pedaço de terra, neste país imenso tudo era e é fusão. O arco-íris da fusão sediou-se aqui e reluz nas cores das florestas, nas cores das flores, como nas cores das pessoas, nas cores dos dias e das noites, nas cores das tempestades e do vento, as quais raramente se recolhem ao silêncio, à calmaria, pois em cada sopro há música e ritmo".
          Não era um grito de espanto, mas um sussurro de admiração e louvor.  Pintou o panorama da cidade, Botafogo, o aqueduto, o palácio de São Cristóvão, vista do convento de S. Teresa, o outeiro da Glória. Nos arredores o rio Pirahy e vistas de São Paulo. Entregou a D. Pedro 763 aquarelas e desenhos.
Rio de Janeiro
Campo de Santana / RJ
Fábrica de pólvora / RJ
Vista do Paço Imperial / RJ

          Felizmente a magnífica obra da arquiduquesa  da Áustria ao povo brasileiro não foi esquecida. Em 1996 a artista Rosa Magalhães ( carnavalesca, professora de Artes Decorativas da Escola de Belas Artes, muitas vezes premiada) rendeu-lhe justa homenagem na Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense. Pesquisou extenso arquivo histórico no Brasil e na Áustria, e representou na avenida toda a bagagem cultural   de tão elevado saber. Foi "O Grito" de carnaval mais alegre e prestigioso que um país pode enviar a  outro, sob forma de gratidão. Especialmente porque as fantasias, adereços, carros alegóricos, e tudo o mais foi realizado com a ajuda do  povo carioca...


          E se antes tínhamos uma flor que se chamava bastão do imperador, hoje temos outra que se chama rosa da imperatriz...
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* sobre Pedro Américo ler:  "Pedro Américo e o olhar oitocentista"  de L. R. B. Rosemberg,
Barroso Produções Editoriais, RJ, 2002.
         

          

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O Bom Humor

          Quando Baltasar Gracián escreveu " A Arte da Prudência" no séc. XVII, fez uma apreciação inteligente de como conduzir-se numa sociedade hostil como era a Espanha naquela época.  

           Diz ele: "(...) Um pouco de graça tudo tempera. Os grandes homens também têm a arte da jovialidade, que atrai a simpatia de todos, mas sempre respeitando a prudência e guardando o decoro (...)".
          Baseados nesse pensamento ( ou indiferentes a ele) humoristas criaram e criam seus personagens, inspirando-se no comportamento geral. Tipos regionais, profissões específicas, grupos urbanos e rurais, relacionamento familiar, fábulas adaptadas, mitologia urbana, sexo, religião e política são os temas preferidos. O artista aprofunda suas percepções, observa atentemente e descobre os pontos de interseção entre um comportamento padrão e outro contraditório ou irreverente, e assim conduz a experiência ao efeito inesperado, que é a própria graça. Analogias, metáforas, atos falhos, exagero e mal entendidos podem ser matéria para o risível.
          Tenha o  humorista uma boa idéia e pode simplificar os tipos imaginados, fazendo valer suas representações, através de detalhes como roupas, acessórios, etc. É o caso dos personagens de Chico Anísio, Os Simpsons, a Turma do Pererê, Chaves, A Rebordosa, Gente Fina, Radical Chic, que reúnem características de setores da sociedade, e não imitam uma pessoa específica.
          Porém, mais adiante Baltasar Gracián avisa: " (...) Aquele que não sabe discernir entre o que há de bom nas coisas deve dissimular sua inteligência limitada. Não se deve criticar sem consideração: o mau gosto normalmente nasce da ignorância (...)".
          Quer dizer que não basta ser desenhista para fazer humor. Há que saber analisar o conteúdo da crítica, ter uma fonte segura de informações,estar consciente do que vai insinuar ou mostrar, e testar o efeito antes de publicar.
          No caso de temas que dialogam com situações mal resolvidas como pressões internacionais, corrupção, globalização, má administração etc. a crítica não deve ser feita de forma leviana. Em caso de dúvida é melhor não fazer a piada.
          Especialmente o caricaturista, que concentra em poucos traços detalhes da fisionomia ( exagerando-os, apreendendo trejeitos, manias e hábitos) de pessoas públicas precisa precaver-se da antipatia do retorno. Pode acontecer da crítica não ser bem compreendida e a pessoa visada sentir-se ridicularizada e vingar-se.
          Ao contrário do que algumas pessoas pensam, a caricatura é uma arte difícil e muito séria, que congela em segundos um aspecto da realidade que só ao artista foi possível perceber.
          
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          Professores de alunos com facilidade em expressar humor nos desenhos precisam orientá-los corretamente. Se não for possível ajudá-los na elaboração do desenho de seus personagens, ao menos que possam aprofundar juntos as pesquisas dos assuntos relacionados. Criar um grupo de suporte para debates também é uma boa ideia.

         
         

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O Poder da Imagem

          A arte atua na esfera da ilusão, a fotografia atua na esfera da evidência do real. Quando as duas se encontram com a finalidade de conduzir (ou induzir) o olhar para novas experiências sensoriais direcionadas, a imagem resultante é polivalente, e pode ser usada em publicidade.
          Do mesmo modo que uma palavra abre um leque de possibilidades e idéias associadas a ela, uma imagem pode conduzir a outra. Esse é o segredo das boas campanhas publicitárias.
          Na foto do teto da capela real de Versalhes, em lugar da pintura de Antoine Coypel ( "Pai Eterno em Sua Glória" , isolada pela produção), surge a imagem de um carro (Audi) suspenso por querubins em suas pequenas mãos. Como a foto possui excelente qualidade, pode-se ver através dos vitrais que deixam passar a luz relevos de motivos florais e medalhões. O requinte da decoração leva imediatamente à associação de idéias de luxo, sofisticação,  sobriedade, confiabilidade e  excelente qualidade! O truque está em substituir uma imagem pela outra e colocar o carro onde antes estava representado o céu... 
          A propaganda da Pirelli veicula imagem de quatro pneus mesclada e superposta à imagem da mão fechada, onde os pneus  substituem os dedos da mão humana. A foto tem fundo azul escuro e é riscada de gotas de chuva que cobrem todo espaço, enquanto a água é projetada em respingos de debaixo dos pneus para os lados e para o alto. Tão bem elaborada a montagem, que dispensaria o texto publicitário. Sugere frenagem rápida e segura, até em condições climáticas adversas.
 
          Semelhante estratégia  usada pela indústria de moda Printemps, une a foto de uma jovem vestida de negro sobre fundo azul. Ela está de perfil, braços unidos e levantados, mãos espalmadas, pernas abertas, sapatos de saltos. O truque está em aplicar uma saia rendada até a  altura dos joelhos, cuja bainha repete o formato dos arcos da torre Eiffel; as costas do corpete, igualmente rendilhado reporta ao corpo levantado da torre. Mensagem evidente: uma moda tipicamente francesa...
 
          O Boticário, para lançar uma nova linha de perfumes "Tarsila Rouge", inspirou-se no auto retrato de Tarsila do Amaral, onde ela se apresenta envolta num casaco vermelho de vasta gola em formato circular. O projeto publicitário recria a pintura, utilizando ambiente azul com degradé claro em torno do rosto, e uma bela jovem com o mesmo penteado de Tarsila. A gola é  de cetim e está superposta a uma fileira de rosas, que movimentam a regularidade do tecido. A jovem segura um vidro de perfume na frente do detalhe do decote. Como perfume  introduz a mensagem de modernidade, sofisticação e requinte.
 
          Para levantar  as vendas direcionadas  ao Dia dos Pais, linha masculina, o Boticário investe na imagem do Pai Herói: a foto do menino deitado na cama, que sorri para o papai, enquanto este esconde o rosto atrás de uma revista, cuja capa é o retrato de um herói  de história em quadrinhos sorrindo é a substituição perfeita no contexto sugestão, ilusão, satisfação.
          Em página inteira de revista, imagem em close ( de Manos Unidas) focaliza `a esquerda 3 botões de camisa branca, o bolso à direita, e dentro do bolso uma esferográfica vermelha deixa vazar tinta, manchando o bolso por fora, o que conduz a uma associação imediata com sangue.  Texto: "Os meninos de Sierra Leona não vão ao colégio, vão à guerra".  Poderia haver melhor imagem simbólica, que não usasse as pobres crianças como apelação?
          Grande é o poder de sugestão da imagem quando é bem trabalhada, com inteligência e sabedoria. È tão forte, que sequer precisa possuir existência física. Para bom entendedor, meia palavra basta, e meia imagem também.
          A Campari superpôs o invólucro da rolha de uma garrafa e seu rótulo sobre a foto da base do nariz de uma mulher e de seus lábios carnudos brilhantes de batom. Não se vê a   garrafa, mas a necessidade psíquica do observador leva-o a completar a figura, força a projeção de uma imagem inexistente, e repete a fórmula de sucesso...
 
          Além da publicidade, se levarmos em conta a atuação de mímicos como foi Marcel Marceau, que alinhavava sequências de personagens que só tiveram vida em nossa imaginação, revela-se aí o conteùdo insuperável do poder sedutor da imagem.
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          Jovens adolescentes apreciam bastante pesquisas sobre publicidade, seus recursos e ingerência na esfera social. Todo o material veiculado pela mídia pode ser analisado e debatido em sala de aula com muito proveito para todos. Nas escolas que possuem computadores os alunos podem fazer  suas próprias campanhas publicitárias com recursos de photoshop. Nas outras, utilizar métodos  convencionais.
         
         

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Visita ao Museu da Vida Romântica de Paris

          Ladeira abaixo da conhecida Sacre Coeur de Paris, em terreno que pertenceu às abadessas de Montmartre, encontra- se o museu da vida romântica da cidade, rue Chaptal nº 16.
          Edifício estilo italiano, pertenceu ao pintor francês de origem holandesa Ary Scheffer. Ali costumava reunir-se com os amigos, um grupo seleto da sociedade artística e literária dos anos 1830 a 1848: George Sand, Chopin, Delacroix, Rossini, Liszt, Pauline Viardot, Thiers, Dickens, etc.
          No primeiro andar, na antecâmara,encontra-se  o busto em mármore de Ary Scheffer, feito por Jules Cavelier em 1859.

         
          Num  salão  estão expostas as jóias da família da escritora Amandine Aurore Lucile Dupin, que tomou o pseudônimo de George Sand. São jóias que apesar de não serem caras, têm  valor sentimental.
          Noutro salão, sobre a lareira,  a pintura a óleo de Auguste Charpentier retrata a escritora George Sand de frente, a meio corpo, de roupa escura, cabelos soltos e apanhados ligeiramente num dos lados por um arranjo de flores.



 A decoração dos móveis, os objetos de arte que pertenceram à sua família completam o ambiente romãntico.
          Um desenho (1844) feito pelo filho da escritora, Maurice Sand ( que foi o único aluno de Delacroix) ilustra o romance de sua mãe " O Pântano do Diabo".
Etna
          História cheia de ternura do camponês Germain, que depois de viúvo, parte de sua residência a fim de encontrar uma possível esposa para ajudá-lo a criar seus filhos. Com ele vai uma jovem em busca de trabalho num fazenda próxima. O pântano com neblina, os espectros das noite, e a magia do lugar contribuem para as confidências, e Germain acaba por apaixonar-se por Marie. No  desenho de Maurice o pântano tem grande quantidade de árvores e raízes que refletem no charco escuro.
          No salãozinho azul encontra-se uma aquarela feita por George Sand na técnica dendrita. Trata- se de depositar a tinta com o pincel sobre o papel, e em seguida pressioná-lo enquanto está úmido sobre uma folha de papel bristol ( impermeável). Nas suas  palavras : " Esta pressão produz  nervuras às vezes curiosas. Minha imaginação contribui, e  nelas vejo bosques, selvas ou lagos, e acentúo as vagas formas produzidas ao acaso".
          A aquarela em exposição é uma paisagem de céu nublado acizentado claro, e destaca-se das montanhas em tom mais escuro, que encontram-se no horizonte em altura média. Um riacho manso serpenteia entre folhagens e gramas rasteiras. Dois arbustos de copas abundantes, à esquerda, desafiam o precipitar das águas, e fazem eco às  duas  figuras humanas pequeninas, ao lado de um cãozinho, que apreciam a paisagem à distância.
          O espírito romântico,  misterioso, saudosista está em todo o museu, inclusive no molde da mão esquerda de Chopin, realizado em 1849 pelo escultor Auguste Clésinger, genro da escritora.
          No segundo andar encontram-se os famosos retratos da família Scheffer-Renan, e o salão dos Orleans. Ary Scheffer foi professor de desenho dos filhos do duque de Orleans, o futuro Louis- Philippe, e estabeleceu amizade com a família real. Por conta disso, pintou em 1844 o retrato da princesa de Joinville, em solteira Dona Francisca de Bragança (irmã de D. Pedro II,  imperador do Brasil), que casou-se com François, terceiro filho do mesmo Louis- Philippe. Nesse retrato em exposição, ela usa   um vestido acetinado escuro, repousa uma das mãos sobre o espaldar de uma poltrona e a outra no colo. Porta  faixa e insígnias condizentes com sua posição. Outra versão do mesmo retrato encontra-se no Museu Imperial de Petrópolis, no Brasil, em formato menor.
          Vale a pena visitar esse casarão e tomar chá no jardim entre rosas e lilazes, reviver um tempo  que não volta mais....